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Responsabilidade e privacidade na imprensa

Estratégia

13 minutos para leitura

Responsabilidade e privacidade na imprensa

Antecipo ao leitor que este artigo não trata diretamente de SEO. Trata-se de uma análise sobre as responsabilidades dos veículos de mídia e como eles vêm lidando com a privacidade dos usuários.

Caso queira pular esta leitura, recomendo o artigo anterior que oferece 10 dicas de SEO para aumentar sua audiência.

O que é responsabilidade

Procure em dicionários o significado de “responsabilidade” e encontrará definições, com pequenas variações, parecidas com estas:

A responsabilidade é o dever de assumir o compromisso de algo ou alguém, de modo a responder pelos eventuais efeitos

Obrigação moral, jurídica ou profissional de responder pelos próprios atos, relacionados ao cumprimento de determinadas leis, atribuições ou funções.

Obrigatoriedade de responder pelos próprios atos ou por aqueles praticados por algum subordinado.

Gosto desta última pois apresenta a responsabilidade como a obrigação de responder por algo, mesmo que não seja diretamente o causador do ato.

Responsabilidade nas empresas

Todo empresário sabe que tem responsabilidades com a empresa, eventuais acionistas, funcionários e clientes. Se algo dá errado, é sua responsabilidade.

Uma empresa que causa poluição, maltrata animais ou não adota uma postura antirracista é responsabilizada por isso. Hoje, mais do que nunca, a sociedade monitora a atuação das empresas diariamente, especialmente em redes sociais, para saber se estão agindo de forma correta, ética e responsável.

A organização que adota uma postura equivocada ou permite que um fornecedor ou colaborador faça algo errado é prontamente condenada perante a sociedade. Os consumidores não querem mais comprar de empresas que usam trabalho escravo ou infantil na fabricação de seus produtos. Muitas pessoas não aceitam mais trabalhar para empresas que não se posicionam a favor da diversidade.

Mas, as pessoas cobram responsabilidade dos veículos de mídia? Muito pouco! E quando cobram são ignoradas ou contra-atacadas com discursos em prol da imprensa.

Responsabilidade dos veículos de mídia

Ora, se as empresas têm responsabilidade sobre o que produzem e sobre os atos dos seus colaboradores, por que haveria de ser diferente com a imprensa? Mas é.

Os veículos de mídia vêm há muitos anos tratando os consumidores de forma irresponsável, eximindo-se da sua responsabilidade de entregar de maneira ética produtos de qualidade.

Ao contrário das empresas, que ao serem confrontadas pelo público buscam mudanças para garantir sua sobrevivência, os jornais defendem sua posição e recusam-se a melhorar. Usam desculpas e alegam não caber a eles resolver os problemas, mesmo que sejam os causadores.

“Ataque à liberdade de imprensa”

Uma desculpa utilizada frequentemente pela mídia é que criticar a imprensa é algo inaceitável. Um político, empresa ou cidadão que faz críticas a um jornal está promovendo ataques à liberdade de imprensa, afirmam eles.

Veja bem: se o seu jornal escreve lixo após lixo, o público tem total liberdade para dizer o que pensa sobre ele.

Atacar a liberdade de imprensa é algo muito sério, mas precisamos saber como rotular as coisas.

São exemplos de ataque à liberdade de imprensa:

  • Jornalistas sendo presos no exercício da sua profissão;
  • Censura do governo;
  • Agressão e ameaça de morte aos jornalistas;
  • Investir através da desinformação contra a imprensa.

Não configura ataque à liberdade de imprensa:

  • Competição acirrada por audiência, assinantes e anunciantes;
  • Veículos de mídia tendo que desenvolver novos produtos para se manter relevante;
  • Ter de encontrar outras formas de tornar o negócio rentável;
  • Falta de confiança do leitores no seu jornal;
  • Ser criticado pelo que escreve e como escreve.

Concorrência sempre foi bom para os negócios. As relações comerciais e a economia só chegaram até aqui graças à concorrência. Ocorre que na imprensa essa concorrência deixou de existir há muitos anos. Poucos veículos dominam, há décadas, a produção e divulgação de conteúdo e perderam o foco de quem realmente é o cliente.

No Brasil, por exemplo, temos meia dúzia (se tanto) de grupos de comunicação que dominam jornais, rádio e televisão. Eles não precisaram, durante muitos anos, se preocupar com o conteúdo que era produzido pois não tinham concorrência.

Seus clientes não eram os leitores, ouvintes e espectadores. Seus clientes eram os anunciantes, órgãos governamentais e empresas (na maioria grandes conglomerados).

A imprensa simplesmente não precisava ouvir o público pois este não era importante. O cidadão não tinha a quem recorrer e dependia exclusivamente destes poucos grupos para satisfazer suas necessidades por informação e entretenimento.

A imprensa se eximiu da responsabilidade de produzir conteúdo relevante, informativo e útil à população durante anos e agora terá de correr atrás se quiser se manter de pé.

Leia também: “Objetividade e perspectiva jornalística

Novo modelo de monetização

Nos últimos dez anos a imprensa viu sua receita evaporar. O modelo que deu muito retorno durante as décadas de 80 e 90, através da publicidade, já não é um modelo que garantirá a sobrevivência aos próximos dez anos. O Poder360 tem uma matéria que fala um pouco sobre a queda de circulação (impresso e digital) nos últimos anos.

E a própria imprensa foi responsável por isso! Os jornais apostaram num modelo de monetização baseado em publicidade e esqueceram-se de produzir conteúdo relevante. Grande parte dos conteúdos eram publicados gratuitamente para máxima exposição, afinal o que importava era a receita com publicidade.

Os jornais passaram anos ensinando às pessoas que o dinheiro não era motivo de preocupação, que a escala era tudo, que a publicidade era abundante e que as pessoas deveriam ter o que quisessem gratuitamente (mesmo que de baixa qualidade).

Então surgiram as grandes empresas de tecnologia, focadas em alcançar o máximo de pessoas possível usando o dinheiro injetado por seus investidores, e é claro, dando “tudo” de graça.

Em seguida foi a vez dos serviços de streaming, que minaram também a receita da televisão.

Adivinhe para onde migrou o dinheiro da publicidade?

Leia também: “Por que jornais não devem dar notícias gratuitas durante crises?

Privacidade: uma nova moeda

Já falei bastante sobre responsabilidade e acredito que você já tenha entendido meu ponto. Agora, veremos como a imprensa (não) está se preparando para o futuro.

Se no passado a imprensa “dava de ombros” e dizia que não podia fazer nada, que não era sua responsabilidade, hoje ela deve se colocar em posição de assumir essa responsabilidade.

As leis de proteção de dados vigentes na Europa (GDPR), E.U.A (CCPA – Califórnia) e mais recentemente no Brasil (LGPD) estão exigindo que os veículos tenham mais responsabilidade, em especial pelos dados e privacidade dos usuários.

Uma pesquisa recente com 1.000 cidadãos americanos revelou (PDF da pesquisa na íntegra):

  • 91% dos entrevistados acredita que as empresas devem ser responsáveis por quaisquer dados coletados. Para colocar isto em termos de imprensa, significa que as pessoas acreditam que é você como jornal que é responsável por tudo que terceiros fazem com os dados coletados através do seu site;
  • 84% disseram que queriam que a legislação estadual desse aos consumidores o controle sobre seus dados;
  • 91% queriam o direito de apagar seus dados e saber onde e como seus dados estavam sendo usados (assim como na GDPR na Europa);
  • 56% disseram que as empresas deveriam priorizar dar privacidade aos consumidores. Isso significa que os jornais deveriam agir em torno da privacidade ao invés de pedir às pessoas que desistam dela, como é feito na maioria dos casos;
  • 87% disseram que privacidade de dados é um direito humano.

No Brasil, uma pesquisa indicou que 74% dos brasileiros já tentou apagar dados pessoais da internet e redes sociais.

O ponto ao qual quero chegar é: a mídia não pode mais se afastar do mundo real e achar que seu modelo de vinte anos atrás irá garantir sua existência futura. A imprensa não pode continuar tratando o usuário com desrespeito. Ela deve dar atenção ao que o consumidor está pedindo, assim como as outras empresas.

Leia também: “Vamos proibir a publicidade direcionada!

Privacidade nos grandes veículos

Desafio o estimado leitor a navegar pelos principais veículos de mídia e encontrar algum que esteja levando a privacidade do usuário a sério. Me arrisco a dizer que raros são os casos, e os que fazem, fazem por imposição das leis regulatórias e não porque se preocupam realmente com o usuário.

Vejamos o caso da Folha de São Paulo (poderia ser qualquer outro, é muito fácil encontrar casos como este). A Folha é um dos veículos de comunicação mais tradicionais do Brasil (desde 1921) e oferece, assim que você entra em seu site, um grande “f…-se”.

Caixa de consentimento de cookies da Folha de São Paulo
Caixa de consentimento de cookies da Folha de São Paulo

O texto para consentimento é o seguinte (grifos meus): “A Folha utiliza cookies e tecnologias semelhantes, como explicado em nossa Política de Privacidade, para recomendar conteúdo e publicidade. Ao navegar por nosso conteúdo, o usuário aceita tais condições.

Um grande “f…-se”. Se quiser navegar você está concordando. Sem opt-out.

Ah, e caso você queira ver a política de privacidade (sem possibilidade alguma de customizar quais informações você deseja autorizar), encontrará um documento com cerca de 7 páginas (se impresso) de termos e condições não tão claros. Pérolas do tipo (grifos meus): “A Folha não se responsabiliza pelo conteúdo, condições comerciais e cumprimento de qualquer oferta, publicidade ou anúncio veiculado nos seus sites.” ou “A Folha usará todos os meios necessários para proteger a confidencialidade, a integridade e a disponibilidade dos dados pessoais dos usuários. As informações serão incorporadas ao banco de dados da Folha e ficarão armazenadas na sede da Folha, restritas apenas aos seus funcionários e pessoas autorizadas.” que vem seguida de “Os dados do usuário nunca serão transferidos pela Folha a terceiros, que não sejam parceiros ou empresas contratadas para as finalidades previstas neste documento, sem que o usuário tenha previamente autorizado

Um grande “f…-se” na cara do usuário. Do tipo “Não nos responsabilizamos por nada e pode ser que seus dados cheguem às mãos de qualquer pessoa“.

Ah, e é claro que, se olharmos mais detalhadamente, veremos uma quantidade significativa de rastreadores que obtêm dados da sua navegação com a sua “permissão implícita”:

Rastreamento de scripts da Folha de São Paulo
Rastreamento de scripts da Folha de São Paulo

Opa, e olha que bacana! Você não tem a opção para controlar o uso de cookies no site, então decide usar um bloqueador de rastreamento e publicidade (um adblocker). Contudo, eles carregam rastreadores projetados para driblar os bloqueadores e mesmo assim capturar seus dados. Muito ético e responsável…

Rastreamento de scripts da Folha de São Paulo

Outros veículos não deixam por menos, o G1 também usa muitos cookies de terceiros:

Rastreamento de scripts do G1

Assim como o Estadão:

Rastreamento de scripts do Estadão

Ambos com termos genéricos em suas políticas de privacidade e a imposição do consentimento.

Mais uma desculpa…

Depois do “ataque à liberdade de imprensa”, a imprensa descobriu uma nova desculpa para dar ao ser questionada sobre a privacidade dos usuários.

“A culpa é do Google, Facebook, etc.”

Os veículos alegam que as responsáveis pela falta de privacidade são as grandes empresas de tecnologia como Google, Facebook e ad techs.

bullshit

É engraçado ver matérias e opiniões de colunistas falando mal das big techs quando seus jornais atuam de maneira muito mais danosa para a privacidade dos usuários.

A culpa é toda dos jornais!

Entre no site do Google, Facebook ou Amazon e veja se algum script ou rastreamento de terceiros é carregado. Óbvio que não. Estas grandes empresas de tecnologia crescem graças aos seus sistemas próprios de rastreamento, subscrição e publicidade.

Google, YouTube, Facebook, Instagram, Amazon, TikTok etc., nenhum deles está fazendo o que os jornais fazem. Pense nisso.

Publishers ficam constantemente tentando mudar a regra do jogo junto ao Google, pedindo mais flexibilidade na tecnologia empregada nos sistemas de publicidade. Eles não estão preocupados em dar mais privacidade aos usuários, só querem aumentar suas receitas.

O futuro não é incerto

A indústria jornalística deve encontrar meios de melhorar sua publicidade sem comprometer a privacidade do usuário. É responsabilidade da imprensa, assim como de todas as empresas, garantir que a vontade do usuário de manter sua privacidade seja respeitada.

A mudança só não está ocorrendo mais rapidamente pois os jornais não estão sendo pressionados a isso, ainda. Jornalistas têm seus salários pagos com receita publicitária mas em breve isso deve mudar. O consumidor está encontrando formas de não expor sua privacidade para veículos que o desrespeite, em geral pagas, para suprir suas necessidades de entretenimento e informação.

Seria interessante ver os jornais escrevendo sobre como eles ferem a privacidade da mesma forma como escrevem quando o Facebook faz algo errado. Em geral não veremos isso, mas os veículos que adotam uma postura em prol dos usuários têm visto suas assinaturas e sua receita aumentarem.

É preciso que a imprensa ouça seus consumidores se quiser sobreviver aos próximos anos.

Continue lendo: “A era dos navegadores na publicidade digital

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