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Objetividade e perspectiva jornalística

Estratégia, Search Engine Optimization

19 minutos para leitura

Objetividade e perspectiva jornalística

Aviso ao querido leitor que este artigo pode parecer meio off-topic no meu blog mas não é. Visto que seu objetivo é instigar a produção de conteúdos mais relevantes, está totalmente alinhado com SEO (otimização para os mecanismos de busca).

Por que escrevi ele?

Primeiro porque tenho clientes que são veículos de comunicação e atingem milhões de pessoas todos os meses. Sem julgamentos. Espero que gostem e possam tirar proveito deste conteúdo.

Segundo, minha consultoria de SEO é holística, não me importo apenas com o número de usuários vindo ao site de forma orgânica ao final do mês. Preocupo-me com o resultado dos meus clientes. Não apenas o resultado do ano mas também a longo prazo. Aquele resultado que vai manter as portas do negócio abertas nos próximos anos.

Terceiro, como usuário da internet e consumidor de notícias quero qualidade no conteúdo que consumo. Preocupo-me com a qualidade do conteúdo que os leitores estão recebendo.

2020 tem sido uma loucura e a mídia muitas vezes não sabe como cobrir tudo o que está acontecendo. Temas como COVID-19, racismo, aquecimento global e corrupção são abordados de forma parcial, favorecendo a polarização (na maioria dos casos, política).

Muitos veículos adotam um pensamento de grupo insistindo que não são tendenciosos. Jornalistas dizem coisas como “não focamos em um lado ou outro da história, apenas trazemos a informação para as pessoas“.

Besteira!

Você não pode abordar um tema, como aquecimento global, e ficar no meio do espectro onde de um lado existem terraplanistas, afirmando que não é real, e do outro cientistas, apresentando estudos científicos.

Relatar a partir de “território neutro” um tema como esse é irresponsabilidade e um desrespeito com os leitores.

Não podemos falar de objetividade ou imparcialidade jornalística usando apenas um espectro com dois lados opostos. Não se pode classificar todas as matérias de um jornal dessa forma. É preciso ter uma perspectiva jornalística mais refinada.

O que podemos fazer então é criar um sistema de classificação de notícias um pouco mais robusto, conforme sugerido pelo analista de mídias Thomas Baekdal.

Primeiro definimos se estamos falando de opiniões ou fatos. Até aqui os jornais tem relativa facilidades para classificar seus conteúdos (embora às vezes ainda confundam os dois).

Em seguida, criamos outro espectro onde definimos se algo é ou não um problema. Ou seja, não é se as pessoas pensam que é um problema, mas se através de verificações jornalísticas constata-se que é um problema.

Combinando estes dois espectros podemos formatar uma matriz:

Matriz para classificação de notícias
Matriz para classificação de notícias

O papel dos jornalistas é encaixar cada história em um quadrante. Vejamos um pouco sobre cada um:

Problemas baseados em fatos

Antes de tudo, temos o quadrante superior direito, onde temos todos os tópicos que são definidos como problemas e que também são baseados em fatos e dados reais.

Podemos encaixar neste quadrante a corrupção no Brasil, por exemplo.

Matriz para classificação de notícias
Corrupção é um problema real

Por quê? Jornalistas precisam investigar. Eu, que não sou jornalista, pesquisando no portal Transparência Internacional encontreio o Brasil na 106ª posição de um total de 180 países avaliados no Índice de Percepção da Corrupção (estou usando exemplos mas é claro que o jornalista deve averiguar se suas fontes são confiáveis).

Percepção da corrupção no Brasil
Fonte: IPC 2019

Ainda, todos os dias o MPF aceita denúncias de corrupção dos mais variados tipos.

Os jornalistas agora possuem as informações necessárias para definir corrupção como um problema real, e dados para definir como um fato. Pensem nisso em termos de objetividade jornalística.

Jornais não podem simplesmente dizer: “Não sabemos se isto é um problema, então cobriremos os dois lados igualmente“. Sabemos que é um problema. Relatar sobre ele de qualquer outra perspectiva é desonesto.

A definição de “objetividade” não é ser neutra para todos os lados e sim ser objetiva em relação aos fatos:

Objetividade (adjetivo): capacidade de se concentrar no objetivo (objetividade) ou matéria em questão, não misturando opiniões ou ideias pessoais.

Portanto, quando você como jornalista sabe que a corrupção é real, ser objetivo não significa que você reporta o que todo político tem a dizer. Significa que você não permite que opiniões políticas influenciem seu foco sobre os fatos!

Leia também: “Menos conteúdo = mais conversão

Problemas baseados em opiniões

Em segundo lugar, estão todas as histórias que sabemos que algo é um problema, mas que o jornalista não tem nenhum fato/dado específico para ajudar na cobertura.

Um exemplo poderia ser o problema de mobilidade em Florianópolis, cidade onde moro. Não é preciso ser um gênio para em dois ou três dias na cidade constatar que em horários de pico (e também fora deles kkk) o trânsito é lento. Isso é um fato. Entretanto, a solução para esse problema se baseia em opiniões.

Matriz para classificação de notícias
Um problema, mas que não temos dados suficientes a respeito

É um problema mas não sabemos como consertá-lo. Cada partido, entidade de classe e grupo comunitário tem sugestões. Alguns querem mais ônibus, outros mais ciclovias, outros transporte marítimo e alguns já cogitaram até teleféricos.

Apresentem a história ao público como o problema que ela é, mas focalize a cobertura na apresentação e relato das muitas soluções e promova um debate sobre elas.

Como jornalistas, vocês devem apresentar cada solução igualmente, detalhando e responsabilizando cada parte pela precisão e utilidade da informação que está sendo fornecida.

Fatos que não são problemas

Depois, temos histórias que sabemos que não são um problema, mas que outros afirmam ser.

Matriz para classificação de notícias
Fatos que não são um problema conforme alegado

Um exemplo disso são políticos e/ou entidades falando sobre um problema. Em Santa Catarina, por exemplo, alguns políticos buscam incentivos fiscais para determinados setores, como a suinocultura, alegando que o setor é um dos que mais sofre com crises e é preciso dar apoio aos produtores.

Numa rápida pesquisa é possível ver que isso não é verdade:

É preciso ter uma objetividade jornalística em relação a isso. O que os políticos e entidades estão falando não é o problema que descrevem e temos dados para provar.

Neste caso, não se pode noticiar o que o político está dizendo e oferecer-lhe uma plataforma para disseminar seu discurso. A responsabilidade dos jornalistas é manter o público informado dos fatos, não permitir que opiniões dos políticos influenciem o foco sobre estes fatos.

No exemplo dado, se a notícia fosse a demora para liberação de licenças ambientais pelo órgão competente, possivelmente poderíamos classificá-la no primeiro quadrante.

Também não se pode transformar em uma história de dois lados, onde é entrevistado um político dizendo isso e outro político dizendo o contrário. Isso é errado pois sabemos quais são os fatos. Jornalistas não devem dar à pessoa que mente oportunidade igual de ser ouvida.

Opiniões que não são problemas

O último quadrante é “perigoso”. Aqui temos todas as histórias que não são problema para ninguém, mas os políticos (ou outros grupos) realmente querem que você pense que é um problema. As pessoas que falam sobre isso nunca fornecem dados ou evidências, estão apenas expressando uma opinião.

Em resumo, são histórias que, jornalisticamente, não parecem ser relevantes para o público (não são um problema) e são inteiramente baseadas numa opinião.

Matriz para classificação de notícias
Opiniões que não são um problema

O problema é que os editores passam muito tempo neste quadrante. Por que fazem isso? É aqui que estão as pautas “populistas”.

Se eu fosse editor de um jornal, via de regra não publicaria este tipo de matéria. Elas não são problemas apesar de todo o alarde que possam fazer sobre elas. Pense… como está sendo a vida das pessoas nos últimos 6 meses? Veja como foram as eleições em alguns dos principais países do mundo nos últimos anos. Perceba a força da mídia e redes sociais no nosso cotidiano.

Dar voz a este tipo de conteúdo (opiniões que não são problemas) é dar exposição a quem fala e mais força para sua base. Você simplesmente não pode chamar um terraplanista para falar no seu programa de televisão ou publicar algo no seu jornal, exceto se for um programa de comédia.

O papel do editor é definir o que é relevante ou não. Não é notícia só porque um político disse que é. Se não é relevante não deve ser publicado.

Está em dúvida, peça provas. Se não provarem, através de dados e/ou fatos, não merece ser publicado. Se quem fala quer exposição, que vá no Facebook ou no WhatsApp e fale.

Perceba que não é preciso adotar um viés político ou científico para classificar um conteúdo. Basta objetividade.

Leia também: “Responsabilidade e privacidade na imprensa

Como “notícias neutras” criam notícias polarizadoras

Quando olhamos para o sentimento das pessoas em relação às notícias observamos que o público está cada vez mais polarizado. A confiança das pessoas nos veículos está diretamente ligada à afinidade política. Falta de confiança na política (e políticos) resulta em queda de confiança nas notícias.

Os jornalistas mesmo quando tentam ser neutros acabam polarizando um assunto. Podemos exemplificar com dois temas, um nacional, operação Lava Jato, e um mundial, aquecimento global.

Em ambos os casos, desde o início suas coberturas foram marcadas pela perspectiva política. Por receio de tirar qualquer conclusão, jornalistas ao invés de definir um foco acabaram entrevistando cada lado político do tema no melhor estilo “jornalismo imparcial”.

Esse pode ser o pior tipo de jornalismo (o autodeclarado “neutro”). Na falta de acesso concreto aos fatos os veículos concentram-se apenas em ouvir opiniões. Sabemos que mudanças climáticas são reais, sabemos que a Lava Jato visa combater a corrupção. Buscando permanecer “neutros” os jornalistas abordam estes conteúdos sob a ótica política (dois extremos).

Aquecimento global, corrupção e doenças são reais e não vão desaparecer só porque algumas pessoas acham que não existem.

É um desserviço que os jornais prestam à população abordando estes temas de forma politizada.

Toda vez que um jornal não consegue mostra objetividade jornalística acaba reforçando essa posição de polarização. Este jornalismo mantém as pessoas mal-informadas e polarizadas e cabe aos leitores decidir em que confiam.

O mesmo ocorre com o racismo.

Capa O Estado de São Paulo 04/06/2020
Capa O Estado de São Paulo de 04/06/2020

Os leitores vêem capas de jornal com fotos de manifestantes em conflito com policiais e apenas reagem a história que está sendo apresentada. Não há contexto ou orientação. Então, eles tiram suas conclusões. Alguns tomam os policiais como certos e outros os manifestantes.

Como consertar isso?

Objetividade jornalística. Use a matriz para classificar o conteúdo.

Onde você colocaria a mudança climática na matriz? Sabemos que é um problema. Temos muitos dados e somos expostos direta ou indiretamente à ela a todo momento.

Portanto, a mudança climática é um problema baseado em fatos. Isso a coloca firmemente no primeiro quadrante.

Matriz para classificação de notícias
Mudança climática é um problema real

Ela deve ser abordada sob esta perspectiva. O que fazer a respeito, falar sobre as comunidades locais e como elas podem ver as mudanças, analisar orçamentos e planos locais para preparar e prevenir danos. Há muitas pautas para cobrir.

Importante é abordar o tema com foco correto. Para cobertura das mudanças climáticas não importa quem é o presidente da república. Sendo assim, não deve ser uma cobertura com viés político mas sim sob a perspectiva climática e pública.

O mesmo ocorre com outros temas, como a COVID-19 por exemplo. Também não é uma pauta de enfoque político. É uma pauta de saúde e os editores devem se concentrar nisso em vez de permitir que os políticos a transformem em uma questão política.

Mas nem tudo se baseia em fatos. Por exemplo, embora saibamos que a mudança climática é um problema, as pessoas podem ter opiniões diferentes sobre como resolvê-lo. Como cobrir isso?

Atenção: ainda sabemos que a mudança climática é real. Só porque as pessoas têm uma opinião a respeito, não muda o fato de que é real. Ocorre que às vezes os jornalistas não dispõe das informações suficientes para determinar que solução funcionaria melhor para o problema.

Sendo assim, cria-se o debate de soluções a um problema real ouvindo opiniões.

Matriz para classificação de notícias
Debate sobre as formas para resolver o problema

Aqui cabe o tradicional jornalismo “de ambos os lados”, mas é preciso ouvir e debater todas as soluções possíveis.

Dois pontos:

  1. Jornalistas devem descobrir e explorar as soluções propostas para descobrir os fatos a respeito delas. Devem pedir explicações, orçamentos previstos, simulações, etc. para defender um ponto de vista. Não se trata apenas de “informar o público”;
  2. Fujam do viés político. É um grande erro abordar estes temas da perspectiva política de qual partido diz o quê, especialmente em anos de eleição.

As histórias devem ser centradas em torno do que a solução proposta contém, removendo a política por trás dela.

É claro que, você, meu caro jornalista, dirá: “Mas o presidente disse que o aquecimento global não existe.” ou “Quem inventou o coronavírus foram os chineses“.

Como disse antes, por mim esse tipo de matéria nem seria publicada. Mas, como não estou à frente de nenhum veículo, vamos alocar este tipo de conteúdo na matriz.

Um político, dando uma opinião que não pode defender com dados ou fatos: jogue no quadrante destinado aos idiotas inventando e propagando asneiras pelo mundo.

Matriz para classificação de notícias
Uma opinião contrária aos fatos

Agora ouço: “Mas foi o presidente do Brasil que falou que o aquecimento global não existe. E foi o presidente dos Estados Unidos que disse que a COVID-19 foi inventada na China. Nós como jornalistas não temos o dever de relatar isso?

Será?! Como disse antes, vivemos num mundo tão “agitado” que algumas coisas se confundem. Em outros tempos ao ser noticiada uma manchete dessas o político deveria ir a público pedir desculpas e passaria vergonha perante a comunidade. Hoje, ganha exposição, seguidores em redes sociais e via meme. Quem fala m…. é recompensado! (Não estou tomando partido, apenas dando exemplos do nosso cotidiano)

Sendo assim, pense na classificação do conteúdo. Quanto tempo queremos que os visitantes gastem em cada quadrante?

Em outras palavras, quando seus leitores vierem até você, qual caixa representará mais valor para o seu leitor? E para a sociedade? E para o seu jornal?

É preciso manter o foco nas histórias que tragam as melhores informações. As histórias de menor valor são as dos quadrantes inferiores da matriz.

O foco nas matérias deve ser o seguinte:

Matriz para classificação de notícias ideal

Os jornais devem manter o foco nos problemas reais. Os problemas que se baseiam em fatos.

Como fazer a cobertura de besteiras

Nos 5% dos casos em que você sente que precisa cobrir o que algum político disse, faça-o a partir da perspectiva do “sanduíche da verdade”.

Jay Rosen escreveu recentemente sobre isso. É um conceito originalmente atribuído a George Lakoff e é baseado no princípio de que se você tem que relatar algo que sabemos não ser verdade, sempre comece e termine o artigo com o que é verdade.

Como Jay Rosen o descreve (tradução minha):

  1. Diga o que é verdade.
  2. Informe que foi feita uma afirmação falsa ou duvidosa. (Mas somente se for digno de ser noticiado, importante para que o público saiba que aconteceu. Caso contrário, use o silêncio).
  3. Repita qual é a verdade.

Um exemplo de LIDE:

Não há provas claras de que a hidroxicloroquina, um medicamento antimalárico, proteja contra o Coronavírus. Donald Trump disse hoje que está tomando, mas seu médico não confirmou isso, e especialistas médicos disseram que poderia ter efeitos colaterais perigosos.

Como você pode ver pelo exemplo, a ideia é colocar entre parênteses a afirmação problemática entre declarações precisas, de modo que não seja a primeira nem a última impressão em um boletim de notícias. Isto não é uma solução para o problema de como informar sobre falsas acusações e provavelmente besteiras, apenas uma prática melhor que não é difícil de aprender e poderia se tornar uma política de redação amanhã.

Portanto, se você tiver que cobrir algo naquele quadrante inferior esquerdo, essa é a abordagem.

E o que tudo isso tem a ver com SEO?

Absolutamente tudo! SEO tem a ver com melhorar o posicionamento nas buscas mas também com melhorar os resultados do negócio.

Um jornal não conseguirá atrair, monetizar e reter leitores se focar seus esforços de produção de conteúdo no quadrante das “besteiras” (opiniões que não são problemas).

Mesmo que estas besteiras possam trazer resultados com publicidade a curto prazo, é difícil imaginar isso funcionando daqui alguns anos. O mercado está mudando. A receita dos veículos com publicidade caiu significativamente na última década.

Leia também: “Dicas de SEO para publishers: 10 maneiras de aumentar sua audiência

Ainda, produzir muito conteúdo “lixo” não favorece sua estratégia de SEO. Tais conteúdos possuem uma perecibilidade muito rápida. São apenas uma commoditie, muitas vezes distribuída de forma gratuita e difundida em redes sociais. Focar nestes conteúdos consome recursos (pessoas e dinheiro) e gera concorrência interna entre os conteúdos do site.

O excesso de conteúdo ruim prejudica a estrutura do site e pode levar à perdas significativas de audiência e receita.

Leia também: “6 erros de estrutura de um site e como evitá-los

Concluindo

Obviamente, não é possível mudar o problema em torno da polarização política e da falta de confiança da noite para o dia. Este é um processo que vai levar muito anos.

Se os jornais usarem esta matriz ou um modelo similar, migrando dos quadrantes inferiores para os superiores, leitores estarão mais informados e veículos terão melhores resultados.

As pessoas precisam voltar a confiar nas notícias (e nos jornais). Precisam ver valor nisso. Precisam ver valor na assinatura de um jornal e não apenas buscarem notícias gratuitas e em redes sociais.

Ser objetivo não significa entrevistar igualmente todos com uma opinião. Significa se concentrar nos fatos e não permitir que todas as pessoas com opiniões interfiram nisso.

SEOs precisam parar de focar apenas em ganhos imediatos de posicionamento. Precisam envidar esforços para tornar os conteúdos úteis aos usuários/leitores. Assim, todos estarão prestando um serviço para a sociedade e aos seus negócios.

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